A incerteza e a divisão causadas pelo Resident Evil de Zach Cregger

À medida que o lançamento se aproxima, fãs notam incoerências nas falas da equipe de produção e cresce a insegurança com o resultado final do filme


A sinopse do novo filme de Resident Evil é a seguinte: “Da mente do visionário cineasta Zach Cregger (A Hora do Mal, Noites Brutais) chega uma reinvenção eletrizante — e aterrorizante — da franquia Resident Evil. Em uma história completamente inédita, acompanhamos Bryan (Austin Abrams), um entregador de suprimentos médicos que se vê, involuntariamente, em uma corrida frenética e ininterrupta pela sobrevivência, enquanto uma noite fatídica e de puro horror desmorona em caos ao seu redor.“

Já sabemos que novos anúncios de adaptações live-action de Resident Evil quase nunca são bem-recebidos pelos fãs. A comunidade - já calejada e cansada de receber histórias sem a essência certa ou apenas com o nome da franquia na capa de roteiros desconexos - se tornou conhecida como “difícil” e exigente até mesmo em Hollywood.

Declarando já estar ciente dessas coisas, Zach Cregger surgiu anunciando seu papel como diretor e roteirista do novo filme live-action de Resident Evil e prometendo muita fidelidade. Em entrevistas iniciais, Cregger disse o que todo mundo queria ouvir: que era fã de longa data dos jogos, conhecia a história da franquia e nunca tinha assistido aos filmes feitos anteriormente. Juntando a isso o seu ótimo histórico como diretor em A Hora do Mal e Noites Brutais, uma ótima primeira impressão foi dada aos fãs. E então, veio a neve…

Eventualmente foram divulgadas de forma não-oficial algumas imagens dos bastidores de gravação em Praga, na República Tcheca, e pudemos ver um pouco mais da ambientação do filme. Neve, muita neve. Em Raccoon City...e em pleno outono, quando ainda está calor na cidade. Além disso, vimos também zumbis estranhamente ágeis que não correspondem aos zumbis do surto viral de Raccoon City (que são muito mais lentos e nos vencem em número). 
Pouco tempo depois, o suposto roteiro do filme acabou sendo vazado, o que acabou manchando ainda mais a imagem do filme: novamente, apresentava uma história fraca, que parecia ter sido encaixada de qualquer jeito na franquia. Quando o primeiro trailer saiu, tivemos a confirmação de que pelo menos boa parte do material que foi vazado é real. Em meio a todo o caos que vinha se formando, Cregger adicionou a cereja do bolo: afirmou que a história do filme se passaria em Raccoon City, em paralelo à história de Resident Evil 2.


Esses “pequenos” erros de caracterização e ambientação acabaram se tornando grandes alertas para os fãs. Como o filme vai se passar em paralelo à Resident Evil 2 se nem ao menos possui características que batem com as do local em que o surto viral acontece? Sobre a ambientação, ainda foi revelado pelo designer de produção Tom Hammock, em entrevista à ScreenRant, que eles se inspiraram fortemente não apenas em Resident Evil 2 & 3, mas especialmente em RE4 e RE6. A franquia Resident Evil se reinventou e navegou entre diversos estilos de terror, atmosferas e ambientações ao longo do tempo para se manter viva e relevante, e sabemos que tanto Resident Evil 4 quanto Resident Evil 6 têm propostas completamente diferentes da inspiração principal do filme, que é o segundo game da franquia. Apesar de inicialmente dizer que era um fã ávido da franquia e que gostaria de fazer algo coerente em enredo e ambientação, Cregger mudou a sua narrativa dizendo que era inevitável não dar um toque autoral ao filme, baseado na sua própria experiência como jogador, e ainda acrescentou que "não havia vantagem em contar a história do Leon porque os jogos já fazem um ótimo trabalho nisso". Quero saber quem vai avisá-lo de que Leon não é único protagonista da franquia, não foi o primeiro (e nem mesmo o segundo) personagem principal dos games e que 30 anos de enredo sobre bioterrorismo, política e outros temas complexos não giram em torno dele.

Fora tudo isso, ainda vemos claras inspirações do filme nas franquias Evil Dead (terror sobrenatural, terror trash, comédia de terror) e Silent Hill (terror sobrenatural, terror psicológico, terror de sobrevivência). Essas são franquias excelentes por terem uma identidade própria, moldada ao longo do tempo, e que não se assemelham em nada a Resident Evil. Só porque são franquias de terror, não significam que sejam do mesmo subgênero ou que abordem apenas isso; não é como se esse gênero se limitasse às mesmas características em todos os casos. Resident Evil possui uma atmosfera única e envolvente, que se molda conforme a história que quer contar, e diversas histórias em aberto. E sim, a história é muito importante e é um dos pontos principais da franquia - diferente do que algumas pessoas pensam ao dizer que apenas a atmosfera e a experiência de gameplay importam. Vai entender...


Analisando tudo que vimos até agora sobre o filme e as falas no mínimo questionáveis do próprio diretor e roteirista, posso dizer que os instintos dos fãs estavam majoritariamente certos. E infelizmente, podemos ver mais uma vez a fanbase completamente dividida e até mesmo mais agressiva do que o normal. Uns defendem o trabalho de Zach, outros dizem que outras adaptações feitas anteriormente são sim boas de verdade (há controvérsias) e outros simplesmente afirmam que já perderam a fé num bom live-action vindo de Hollywood. A presença da Constantin Films no projeto também acaba sendo sinal de alerta, devido ao terrível histórico da empresa com adaptações; alguns dos maiores exemplos disso são a série da Netflix, todos os filmes live-action de RE e até mesmo 
o primeiro filme do Quarteto Fantástico, feito em 1994 (isso mesmo que você leu). A empresa tem um histórico duvidoso com suas produções, e merece uma matéria especificamente para falarmos disso.

Declarações conflitantes, fotos de bastidores e roteiro vazado sendo mal-recebidos, fãs brigando. Temos um total de 0 dias de paz na comunidade de Resident Evil.

É provável que o filme de Zach Cregger seja um excelente terror, feito por um dos mais promissores diretores do gênero. Mas as chances de que seja uma boa adaptação da franquia Resident Evil são baixíssimas. Recomendo que analisem as declarações e novos conteúdos divulgados com calma, e que também controlem as expectativas e esperem para poder formar uma opinião própria sobre o filme. E claro: sem hate!


Para obter mais informações sobre o andamento do filme ou ver mais declarações de Cregger e sua equipe, recomendo que acesse o site da ScreenRant, que tem sido responsável por grande parte da cobertura da produção do filme, previsto para ser lançado em 17 de setembro deste ano.

*Por Luisa Borges